A Peste em Veneza

A Peste em Veneza

Ao longo da história, Veneza foi atingida por epidemias, tal como aconteceu noutras cidades. Sendo um importante porto do Adriático, por onde entravam muitos dos produtos vindos de oriente, estava numa situação de fragilidade para resistir a toda a espécie de moléstias que pudessem vir desses lados, tal como acontecia em Génova ou Marselha, por exemplo. Como se sabe a grande Peste Negra de 1347 a 1352 foi a epidemia mais mortífera e teve início no oriente. Parece ter seguido a rota da seda e disseminar-se para  ocidente pelos barcos que transportavam mercadorias para os portos do Mediterrâneo. Do sul da Europa, expandiu-se para norte, sempre com maior incidência em meios mais urbanos e poupando, só parcialmente, os meios mais rurais. A Peste não sendo inevitavelmente fatal ( excepto na sua forma pulmonar), tinha uma elevada mortalidade e produzia feridas e supurações que provocavam grande sofrimento aos doentes. Podia arrastar-se por alguns dias, ou ter um desfecho muito rápido como dizia Boccaccio: “Quantos homens e mulheres tomam o seu pequeno almoço com os parentes, e vão jantar com os antepassados no outro mundo”.

Na história de Veneza registam-se três grandes epidemias de Peste:

1348/9 – A Peste Negra que atinge toda a Europa

1630 – Epidemia que atinge, particularmente Veneza. A enorme perda de vidas enfraquece a sua capacidade de defesa, facilitando o ataque otomano e o início da Guerra de Creta que durará até 1669.

1797 – De menor gravidade, mas atinge a cidade numa época em que os problemas  se agudizaram por coincidir com a invasão das tropas de Napoleão.

Isto não foi muito diferente do que se passou noutros locais, nem sequer de maior gravidade. Mas, Veneza, costuma ser apontada com alguns factos marcantes e inovadores na forma como se começou a encarar este tipo de calamidades:

A instituição da quarentena

A construção de Lazzarettos

Ter nomeada uma Autoridade sanitária

A utilização da máscara

        QUARENTENA

A primeira vez que foram tomadas medidas de isolamento para pessoas suspeitas de poder vir a desenvolver a Peste, foi no ano de 1377, em Ragusa, actual Dubrovnik. Era uma Trentina (trenta giorni), portanto eram trinta dias de isolamento. Só em 1383 em Marselha e em 1403 na cidade de Veneza, esse período foi estendido para quaranta giorni – quarantina. A esta quarentena eram sujeitas todas as pessoas que chegavam, vindas de zonas muito atingidas pela peste, que apresentavam sinais suspeitos de doença ou que tinham estado em contacto com doentes. Não havia, nessa época nenhum conhecimento sobre como se transmitia a doença.Esta medida nos dias de hoje já não significa um período exacto de quarenta dias, mas é variável, de acordo com as circunstâncias, e é objecto de alguma discussão pelas implicações que tem na garantia das liberdades individuais, necessidade de contenção de doença, etc.

        LAZZARETTO

Esta pode ter sido, de facto, uma das medidas verdadeiramente inovadoras da cidade de Veneza. A construção de locais que permitissem o isolamento de pessoas sujeitas a quarentena, onde se garantia que não havia possibilidade de escapar durante esse período.   O primeiro foi construído em 1403, viria a ficar conhecido como Lazzaretto Vechio. Em 1468, na ilha de S. Erasmo, é construído o Lazzaretto Nuovo. Como se pode ver na imagem, a sua localização permitia condições propícias a um isolamento eficaz.

Lazzaretto Vechio

Os Lazzarettos, iriam aparecer noutros locais, como por exemplo o de Frioul, uma ilha ao largo de Marselha, e que ainda foi usado no início do Sec. XX, no decurso da última grande epidemia de Peste, que começou no extremo oriente em 1894.

        AUTORIDADE SANITÁRIA

Trata-se de mais uma inovação, em saúde pública, porque atribui a uma entidade, Il Magistrato alla Sanità, instituída definitivamente em 1485, poderes de aplicação de penas, que podiam ir até à condenação à morte, para quem não respeitasse os regulamentos sanitários (obrigatoriedade de quarentena, enterramentos feitos fora dos locais indicados, entrada de mendigos, etc.), que essa mesma autoridade produzia.

 

Aparelho para limpeza de roupa em tempos de peste

 

MÁSCARA

A Máscara do Medico della Morte.

Para além da conhecida máscara em bico de pássaro, note-se a total protecção do corpo. A máscara prolonga-se por um cabeção que protege o pescoço, luvas de punho comprido e todo o corpo protegido. 

A máscara que era utilizada pelos Físicos, parece não ser ser originária de Veneza, mas foi aqui divulgada. E continua a ser uma das marcas do Carnaval de Veneza. O seu autor terá sido Charles de Lorme, médico francês do sec. XVII, e consistia num capacete com um longo bico que fazia parecer um pássaro, e, no seu interior, eram colocadas essências que permitiam superar o cheiro das feridas dos doentes. Os Físicos assim equipados eram conhecidos como Medicos della Morte, porque a sua taxa de insucesso era altíssima.

Máscara moderna do Carnaval de Veneza

 

 

 

 

 


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