Tafofobia

Tafofobia

Gr. táphos – túmulo; fobós – medo

Certifica-te que terei um funeral decente, e que não serei colocado no jazigo sem que tivessem passado, pelo menos, três dias após a minha morte”. Estas palavras de George Washington para o seu secretário particular Tobias Lear, no dia da sua morte em 14 de Dezembro de 1799, revelam a sua bem conhecida tafofobia.

A tafofobia pode ser definida como o medo patológico de ser enterrado vivo.

Este medo sempre existiu, e foi muitas vezes alimentado por relatos de situações em que se descreve a posição do cadáver exumado, como diferente daquela em que foi colocado na urna. Por vezes essas descrições apontam para a existência de sinais de “luta” para sair daquela situação. É certo que alguns casos aconteceram, estão documentados, mas são seguramente em menor número do que aquilo que os tofofóbicos dizem.

Exemplo de túmulo com sistema de alarme para o exterior, pela elevação de uma bandeira

Um dos casos mais conhecidos é o de Essie Dunbar, que, em 1915, após um ataque epiléptico, foi dada como morta. Tratava-se de um estado catatónico, que pode durar muito tempo após a crise, nesta jovem de 23 anos, da Carolina do Sul, EUA. O funeral foi realizado já com algum atraso, para permitir que uma irmã, que residia numa cidade próxima, pudesse estar presente. A cerimónia teve início e estava o caixão a ser descido quando a irmã chegou, e pediu para ver a irmã pela última vez. Os presentes não se opuseram, o caixão foi içado e aberto, e foi então que Essie se ergueu e sorriu para a irmã. Morreu aos 70 anos, 47 anos depois da primeira “morte”. Este caso, muitas vezes referido pelo dramatismo que envolve, não pode servir para se concluir que estas situações eram frequentes.

Há situações descritas, nos anos de epidemias da peste, em que pessoas moribundas, eram atiradas para as carroças que recolhiam os cadáveres com medo do contágio.

Outro exemplo conhecido de tafofobia, foi Frederic Chopin, compositor polaco, que morreu aos 39 anos, supõe-se que por tuberculose. Pediu que quando morresse o seu coração lhe fosse retirado, como garantia de que estaria morto quando fosse sepultado (D. Pedro IV fez o mesmo pedido, mas por motivo diferente, como se sabe). O coração foi colocado num vaso com um líquido que parecia ser conhaque, e que, entretanto, se foi evaporando. O exame recente, e apenas macroscópico, do coração de Chopin, tem colocado a hipótese de ter tido uma pericardite de causa tuberculosa.

Começamos a falar da tafofobia pelo exemplo de George Washington. No entanto não era o único na família que tinha esse medo. A sua cunhada Hannah dizia: “Nenhum médico no mundo pode assegurar que uma pessoa está morta, até que o seu corpo entre em putrefacção. Por isso, peço encarecidamente que o meu corpo permaneça visível, até que os sinais de putrefacção se manifestem”. Podemos imaginar o desconforto que este pedido provocou às pessoas que viviam com ela.

Mas não se pense que este medo era pouco frequente. Os exemplos são os de pessoas famosas e que costumam aparecer na literatura. Se quisermos apontar um exemplo mais próximo, podemos referir Francisco Borges da Cruz, benemérito de Alpendorada e Matos que, como vem referido nas “Memórias da Freguesia”, compiladas por Licínio Soares, “pretendia que o seu corpo fosse convenientemente vestido e envolto em lençol de seda, que sobre ele fossem deitadas 250 gramas de cânfora, e, passadas 24 horas sobre o seu falecimento, deveria ser-lhe colocado um ferro quente nos pés, para que a morte seja inequivocamente contratada”.

Em Inglaterra, só a partir do início do Séc. XIX, começou a ser obrigatória a certificação do óbito por um médico, o que, não eliminando em absoluto a possibilidade de erro, faz com que diminua muito. Até essa época eram muitas as formas usadas para detectar se a pessoa estava, de facto, morta: instilar amoníaco no nariz, queimar as pontas dos pés com um ferro, introduzir agulhas debaixo das unhas, enfim, tentar provocar uma dor insuportável, para além de, como é conhecido, utilizar um espelho diante da boca e nariz.

A tafofobia foi, como seria de esperar, e do ponto de vista “comercial”, uma oportunidade para a criação de vários tipos de sepultura que permitissem uma saída, em caso de erro na declaração de morte. Esses tipos de sepultura estão descritos e patenteados, sobretudo nos EUA.

Este é um túmulo em que o caixão possui um elaborado sistema de alarme para ser percebido do exterior

 

Este jazigo construído em 1890 na Pennsylvania, permitia a abertura a partir do interior, e na parte superior (não visível na foto), respiradores que contactavam com os túmulos.


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